Obras de João Calvino (Institutas)

John_Calvin01Nascido em 10 de Julho de 1509 em Noyon, França, João Calvino cresceu em uma família católica romana tradicional. O bispo local empregou o pai de Calvino na administração da catedral da cidade, o qual, em troca, queria que Calvino se tornasse padre. Devido aos laços estreitos com o bispo e sua nobre família, companheiros e colegas de Calvino em Noyon (e mais tarde em Paris) tiveram uma influência aristocrática e cultural sobre a juventude de Calvino. Aos 14 anos de idade, Calvino mudou-se para Paris, a fim de estudar no College de Marche e preparar-se para a universidade. Seus estudos consistiam nas matérias: gramática, retórica, lógica, aritmética, geometria, astronomia e música. Ao final de 1523, Calvino transferiu-se para a famosa College Montaigu, uma espécie de escola do monastério. Nessa época, a educação de Calvino foi custeada, em parte, pelo lucro de pequenas paróquias. Assim, embora os novos ensinos teológicos de pessoas como Lutero e Jacques Lefevre d’Etaples estivessem se espalhando por toda Paris, Calvino estava mais ligado à Igreja Romana. No entanto, em 1527, Calvino fez amizade com pessoas que tinham uma visão reformada.

Esses contatos formaram o cenário para a eventual mudança de Calvino para a fé reformada. Também, nessa época, o pai de Calvino o aconselhou a estudar direito ao invés de teologia. Em 1528, Calvino mudou-se para Orleans para estudar direito civil. Nos anos seguintes, estudou em vários lugares e sob a orientação de vários eruditos, enquanto recebia uma educação humanista. Em 1532, Calvino terminou seus estudos na área de direito e também publicou seu primeiro livro, um comentário sobre De Clementia [Sobre a Misericórdia], do filósofo romano Sêneca. No ano seguinte, Calvino fugiu de Paris devido aos contatos que teve com pessoas que, através de oratórias e escritos, se opunham à Igreja Católica Romana.

Diz-se que em 1533 Calvino tenha experimentado uma conversão súbita e inesperada, sobre a qual escreveu em seu prefácio dos comentários sobre Salmos. Nos três anos seguintes, Calvino viveu em vários lugares fora da França com diferentes nomes. Estudou por conta própria, pregou e começou a trabalhar em sua primeira edição das Institutas – um best seller instantâneo. Em 1536, Calvino desvinculou-se da Igreja Católica Romana e fez planos para sair para sempre da França e ir para Estrasburgo. Entretanto, a guerra entre Francisco I, rei da França, e Carlos V, imperador do Sacro Império Romano, eclodiu, e Calvino decidiu fazer um desvio de uma noite para Genebra. Mas a fama de Calvino em Genebra o precedeu. Guillaume Farel, um reformador local, o convidou para ficar em Genebra e o ameaçou com a ira de Deus se não o fizesse. Assim, começou uma longa, difícil, mas, finalmente, frutífera relação com a cidade de Genebra. Calvino começou como professor e pregador, mas em 1538 foi convidado a deixar Genebra devido a conflitos teológicos. Ele foi para Estrasburgo, onde ficou até 1541. Sua estada ali como pastor de refugiados franceses foi tão pacífica e feliz que em 1541, quando o Conselho de Genebra o convidou de volta, Calvino ficou profundamente dividido. Ele desejava permanecer em Estrasburgo, mas sentiu grande responsabilidade em retornar para Genebra. Ele fez isso e permaneceu em Genebra até a sua morte, em 27 de maio de 1564. Esses anos foram preenchidos com aulas, pregações e escritos de comentários, tratados e várias edições de As Institutas da Religião Cristã. Fonte: http://www.calvin.edu/about/john-calvin/

Sua Principal Obra: Instituição da Religião Cristã

A-Instituição-Da-Religião-Cristã-1

Um dos tratados teológicos mais influentes da história do Cristianismo, Instituição da religião cristã é a obra máxima de Calvino, resultado de quase trinta anos de reflexões do pensador franco-suíço. Em 2008, a editora UNESP, em parceria com o Banco Itaú, lançou uma nova edição das Institutas, a partir de sua edição final, em Latin, de 1559. Esta edição tem sido bem aceita pelos leitores em função de sua leitura fácil. Os quatro volumes estão disponibilizados em PDF na internet, divididos em 2 Tomos:

Joao Calvino – A Instituicao da Religiao Crista – Tomo I (UNESP)

Joao Calvino – A Instituicao da Religiao Crista – Tomo II (UNESP)

Acesse também de graça e leia os comentários bíblicos e outras obras de João Calvino na “Biblioteca João Calvino” da Editora FIEL. Clique na imagem para ser direcionado ao site:

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Estudos no Breve Catecismo de Westminster

CONHECENDO O DEUS QUE ADORAMOS

No tema de 2017 da Igreja Presbiteriana Vila Alpes de São Carlos: “Deus procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade” (João 4) temos enfatizado a necessidade de conhecer o Deus que adoramos. Este conhecimento é condição para a adoração, pois corremos o risco de “adorar quem não conhecemos” (Jo 4.22) como disse Jesus para alguns da sua época que eram fervorosos na adoração, mas pobres no conhecimento de Deus. Devemos antes, crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” (2ª Pe 3.18).

assembleia de westminster
Pintura representando a Assembléia de Westminster (1643-1649)

A nossa igreja tem como única regra de fé e prática, a Bíblia. No entanto, sabemos que para se estudar a Bíblia é necessário um roteiro sistemático para nos guiar com segurança nos vários assuntos que a Bíblia apresenta. Seguindo as Igreja Presbiterianas e Reformadas em todo o mundo, adotamos como nossos “Símbolos de Fé” a Confissão de Fé de Westminster e os seus Catecismos. A história destes documentos é muito interessante, pois o Parlamento da Inglaterra, sentindo a necessidade de documentos que representassem os principais pontos da fé Reformada e que servissem de parâmetro oficial de fé e comportamento ético aos seus cidadãos, convocou uma Assembléia ( de julho de 1643 a fevereiro de 1649 ), que se reuniu na Abadia de Westminster, composta de cento e vinte clérigos, os seus melhores teólogos, mais dez membros da Casa dos Lordes, vinte da Casa dos Comuns e oito representantes puritanos. Durante vários anos eles se reuniram e elaboraram vários documentos, mas se destacam:

  • Confissão de Fé de Westminster
  • Catecismo Maior de Westminster
  • Breve Catecismo de Westminster

O Breve Catecismo de Westminster é composto de 107 perguntas e respostas a cerca dos principais pontos da nossa fé. Seguem os links e material em PDF para seu enriquecimento e crescimento espiritual.

BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER COMPLETO EM PDF PARA BAIXAR:

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CLICAR NA IMAGEM PARA VISUALIZAR O CATECISMO COMPLETO EM PDF

Uma Segunda opção para visualizar o Breve Catecismo de Westminster online é no SlideShare (BREVE CATECISMO ONLINE)

Estamos estudando este material com a igreja, e utilizaremos um material organizado pelo Rev. Éber Lenz Cesar que organiza as 107 perguntas em 13 lições muito bem elaboradas.  Está sendo adicionado aos poucos cada lição, conforme avançamos nos estudos. Para visualizar e baixar as lições, basta clicar em cada uma delas.

Estudo 01 – Para que existimos? (Pergunta 1)
Estudo 02 – Nossa regra de fé e prática (Pergunta 2)
Estudo 03 – A natureza de Deus (Perguntas 3 e 4)
Estudo 04 – Um Deus… Três Pessoas (Perguntas 5 e 6)
Estudo 05 – Os Decretos de Deus (Perguntas 7 e 8)
Estudo 06 – A Criação do mundo e do homem (Perguntas 8, 9 e 10)
Estudo 07 – A Providência de Deus (Perguntas 11)
Estudo 08 – O Pacto das Obras (Perguntas12). E leitura suplem.
Estudo 09 – O primeiro pecado e sua extensão (Perguntas 13 a 18)
Estudo 10 – As consequências do pecado (Pergunta 19)
Estudo 11 – A eleição (Pergunta 20). E leitura suplementar.
Estudo 12 – O Pacto da Graça (Pergunta 20)
Estudo 13 – O Redentor dos escolhidos (Perguntas 21 e 22)

FILHOS DA ALIANÇA E A REGENERAÇÃO

A Salvação Eterna de bebês abortados espontaneamente ou não, e de crianças mentalmente incapazes ou que morreram na infância, á luz das Sagradas Escrituras e da Confissão de Fé de Westminster.

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“As crianças eleitas, morrendo na infância, são regeneradas e salvas por Cristo através do Espírito, o qual opera quando, onde e como lhe apraz. Assim também se dá com todas as demais pessoas eleitas que são incapazes de ser exteriormente chamadas pelo ministério da Palavra.” (C.F.W. X – III)

Antes de tratar especificamente da regeneração, é necessário lembrar primeiramente que todos os homens estão mortos espiritualmente desde o seu nascimento. No Cap. VI. seção II da Confissão de Fé de Westminster, lemos que quando os nossos primeiros pais Adão e Eva pecaram, eles “caíram de sua justiça original e de sua comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado, e totalmente corrompidos em todas as faculdades e partes da alma e do corpo.” 

Esta afirmação da CFW está fundamentada em vários textos Bíblicos, mas principalmente na Carta do Apóstolo Paulo aos Efésios, quando afirma aos seus leitores: “Ele vos deu vida estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Efésios 2:1) Após o pecado de Adão e Eva, todos os seus descendentes, ou seja, toda a raça humana tornou-se espiritualmente morta. Na Carta aos Romanos, o Apóstolo diz ainda que “pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte” (Rom. 5:17). E todos os homens estão nesta mesma situação, pois “por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação” (Rom. 5:18).

Tendo em vista que todos os homens estão mortos espiritualmente em seus delitos e pecados, quando salvos, necessariamente precisam ser regenerados e á luz da Confissão de Fé de Westminster compreendemos que os eleitos e somente os eleitos é que são regenerados:

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COMO A REFORMA PROTESTANTE TRANSFORMOU O MUNDO OCIDENTAL

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Do livro: “Calvino e sua Influência no Mundo Ocidental” org. por W. Stanford Reid. Seus 16 capítulos nos mostram, de forma resumida e panorâmica, como que a Reforma Protestante se espalhou pelo mundo ocidental, especialmente através dos cristãos calvinistas, transformando e formatando a sociedade ocidental:

  • CAPÍTULO I – O CALVINISMO COMO UMA FORÇA CULTURAL
  • CAPÍTULO II – A PROPAGAÇÃO DO CALVINISMO NO SÉCULO XVI
  • CAPÍTULO III – SUÍÇA: TRIUNFO E DECLÍNIO
  • CAPÍTULO IV – A IDADE DE OURO DO CALVINISMO NA FRANÇA: 1533-1633
  • CAPÍTULO V – CALVINO E O CALVINISMO NOS PAÍSES BAIXOS
  • CAPÍTULO VI – A IGREJA REFORMADA DA ALEMANHA
  • CAPÍTULO VII – A REFORMA HELVÉTICA NA HUNGRIA
  • CAPÍTULO VIII – CALVINO E A IGREJA ANGLICANA
  • CAPÍTULO IX – PURITANISMO NA INGLATERRA
  • CAPÍTULO X – A CONTRIBUIÇÃO DO CALVINISMO NA ESCÓCIA
  • CAPÍTULO XI – ORIGENS “CRISTÃS” DA AMÉRICA:
  • CAPÍTULO XII – OS IRLANDESES-ESCOCESES NA AMÉRICA
  • CAPÍTULO XIII – O CALVINISMO HOLANDÊS NA AMÉRICA
  • CAPÍTULO XIV – A INFLUÊNCIA DE CALVINO NO CANADÁ
  • CAPÍTULO XV – O IMPACTO DO CALVINISMO NA AUSTRALÁSIA
  • CAPÍTULO XVI – O CALVINISMO NA ÁFRICA DO SUL

CAPÍTULO I – O CALVINISMO COMO UMA FORÇA CULTURAL

Calvincalvo compreendeu que em seu tempo a origem do Estado nacional moderno, o surgimento do comércio burguês internacional, o desenvolvimento da classe moderna e a expansão do mercado monetário exigiam a liberação do empréstimo de dinheiro a juro, oque era condenado pela Igreja Católica. Levantou-se também contra os abusos de poder e muitas outras questões de seu tempo. Com isso percebemos que o Calvinismo teve como propósito, não só a reforma na doutrina, na vida individual e na vida da Igreja, mas também a transformação de toda a cultura. No Calvinismo não há dicotomia entre cristianismo e cultura. Toda a vida inclusive a cultura tem sentido somente quando está sujeita a Deus e a Sua Lei. Vemos a atitude positiva do Calvinismo para com a cultura ao promover o gosto pelas artes Liberais, crendo que elas eram essenciais à formação do homem e ao desenvolvimento de sua humanidade. Também a retórica, as ciências naturais, a arte a música eram apoiadas por Calvino.

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Estudo Exegético – Atos 8:14-17 – Pentecoste em Samaria – Pr. Edgard

Texto: Atos 8:14-17

14 Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João; 15 os quais, descendo para lá, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo; 16 porquanto não havia ainda descido sobre nenhum deles, mas somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus. 17 Então, lhes impunham as mãos, e recebiam estes o Espírito Santo.

Introdução:

O acontecimento a cerca dos samaritanos que receberam o Espírito Santo, registrado em Atos 8:14-17, têm sido alvo de enormes disputas entre os teólogos.

Alguns dizem que os samaritanos não se converteram ao evangelho até a chegada dos Apóstolos; outros dizem que eles se converteram, mas era necessário a vinda dos Apóstolos para “confirmarem” aquela conversão; há quem diga ainda que os samaritanos, depois de convertidos ao evangelho, receberam através dos Apóstolos um segundo batismo no Espírito Santo.

É justamente esta divergência em Atos 8 que divide a cristandade em três grupos. Por exemplo, os católicos e alguns anglo-católicos, baseados neste texto, acreditam que a conversão se dá em duas fases: primeiro o batismo e depois o que eles chamam de “confirmação”, com a imposição de mãos de um bispo que segundo eles é “um sucessor dos Apóstolos”. Já os pentecostais e neo-pentecostais, também baseados neste texto, acreditam que o cristão se converte e recebe o Espírito Santo ao crer e ser batizado, contudo, pregam que o cristão precisa buscar uma segunda benção do Espírito, que eles chamam de “batismo com ou no Espírito Santo”, que segundo eles, deve ser acompanhado com falar em línguas e outras manifestações do Espírito. E os cristãos reformados já têem uma compreensão diferente, conforme veremos neste estudo.

De qualquer forma, veremos neste estudo que, conforme acreditam alguns teólogos, esta é talvez uma das afirmações mais extraordinária do livro de “Atos dos Apóstolos”.

Portanto, devemos perguntar quais são de fato as implicações em se aceitar esta ou aquela interpretação? E o principal, seria esta passagem bíblica uma norma para a Igreja hoje? O que de fato Lucas intentou em transmitir quando registrou este acontecimento a cerca dos samaritanos? Teria Deus de fato retido o Espírito Santo aos samaritanos quando estes receberam a Sua palavra?

Quando que de fato o cristão recebe o Espírito Santo? Quando crê no evangelho e é batizado ou apenas através da imposição das mãos de algum “sucessor dos Apóstolos”? Há alguma norma, ao menos em Atos, para se receber o Espírito Santo, antes, durante ou após o batismo?

Todos estes questionamentos surgem de Atos 8:14-17. Através deste trabalho, tentaremos responder à estas perguntas e a outras mais. Iremos até aonde o texto nos permitir ir, sem contudo, sermos simplistas demais. A passagem é complexa, mas analisando o texto e o contexto, tentaremos nos aproximar ao máximo daquilo que Lucas, inspirado  pelo Espírito Santo, pretendeu transmitir ao registrar este evento.

1. ESTUDO HISTÓRICO :

O livro de “Atos dos Apóstolos” ou “Atos do Espírito Santo” como sugeriram alguns[1], foi escrito pelo evangelista Lucas, possivelmente o “médico amadoe “único gentio dentre os escritores dos documentos neo-testamentários”[2], pois segundo a tradição, Lucas era natural de Antioquia na Síria. Acredita-se ainda que Lucas tenha escrito sua narrativa em c.62 d.C.[3]

Assim como o “Evangelho segundo Lucas”, acredita-se que o livro de “Atos dos Apóstolos” também tenha sido dirigido a Teófilo (Atos 1:1) que provavelmente patrocinou o esforço literário de Lucas, pois os “estudiosos têm entendido acertadamente que estes dois livros constituem uma unidade literária: “Lucas-Atos.”[4]

O propósito de Lucas ao escrever seu livro, tem sido exaustivamente debatido nas ultimas décadas e os estudiosos não são unanimes neste assunto. D. A. Carson[5], por exemplo, faz uma análise das propostas de algumas escolas, como a Escola de Tübingen, que via o livro como uma tentativa de reconciliação entre o cristianismo judaico e o cristianismo getílico, representados por Pedro e Paulo respectivamente. Carson também apresenta outras propostas, onde alguns sugerem que Atos tem um propósito evangelístico ou até mesmo apologético.

No entanto, creio que a maior polêmica se dá em torno da questão histórico-teológica de Atos dos Apóstolos. Pelo fato de se afirmar que Lucas tinha um propósito teológico ao redigir sua obra, alguns ”críticos mais destrutivos do passado tinham pouca ou nenhuma confiança na fidedignidade histórica de Lucas.”[6]Críticos como F. C. Baur, líder da Escola de Tübingen, Adolf Harnack (1851-1930), e outros, especialmente por causa da proposta da Escola de Tübingen, (na qual Lucas tentava reconciliar uma suposta divisão entre o cristianismo judaico e gentílico na Igreja primitiva) tinham em total descrédito o aspecto histórico da narrativa de Lucas.[7]

Por outro lado, temos o professor Horward Marshall por exemplo, que defende veementemente o aspecto histórico da obra de Lucas dizendo que:

“… um dos aspectos literários mais marcantes dos escritos de    Lucas é que foram compostos conforme o estilo literário do Antigo Testamento Grego, a Septuaginta  (LXX). Visto que Lucas sabe escrever com estilo diferente, trata-se dalguma coisa deliberada. É provável que tivesse consciência que estava escrevendo História Sacra[8]

Portanto, esta dicotomia entre teologia e história não existe na narração de Lucas, pois “Lucas é historiador e teólogo… Como teólogo, Lucas estava preocupado em buscar sua mensagem sobre Jesus e sobre a igreja primitiva em história fidedigna… Ele colocou sua história a serviço de sua teologia.”[9]

Finalmente podemos dizer que Lucas registrou em “Atos dos Apóstolos” a “História da salvação”, consciente de que sua narrativa é “uma continuação dos atos poderosos de Deus registrados no Antigo Testamento e do ministério de Jesus.” [10]

2. ESTUDO CONTEXTUAL:

2.1. Contexto Histórico da Passagem:

2.1.1. Os judeus e os samaritanos:

O texto que está em foco nesta exegese, trata da conversão dos samaritanos ao cristianismo. Quando lemos em Atos 8:14 “Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João;” precisamos entender quem eram os samaritanos[11] para saber o que realmente significava para os judeus, o fato dos samaritanos receberem a palavra de Deus.

No séc. X a.C., dez tribos de Israel desertaram e fizeram da Samaria a sua capital. Cerca de 722 a.C. a Samaria foi capturada pela Assíria e houve uma mistura gradual com os povos colonizadores enviados de várias partes do império assírio, desta forma, além de terem criado uma raça mista, a atitude de adoração deste povo foi se distanciando cada vez mais do judaísmo.

Com o advento de Esdras e Neemias, e a nova ênfase sobre a pureza racial, aumentou ainda mais a brecha entre estas comunidades.

Finalmente no IV séc. a.C. os samaritanos construíram um templo “rival” no monte Gerisim e passaram a rejeitar as Escrituras exceto o Pentateuco com algumas alterações. [12]

O ódio entre estas duas comunidades crescia ano após ano. Podemos perceber este fato na sabedoria de Bem Sirach, cerca de 200 a.C.:

“Dois povos aborrecem a minha alma, e o terceiro que eu aborreço, não é um povo: Os que habitam no monte Seir, e os filisteus, e o povo insensato que habita em Siquém.” (Eclesiástico 50:25-26)

Quando se lê: “povo insensato que habita em Siquém” refere-se aos samaritanos, pois “Siquém e não samaria, teria sido e continuaria sempre a ser a cidade santa dos samaritanos.”[13]

Esta oposição de judeus e samaritanos era recíproca, e havia se intensificado no período intertestamentário. O historiador Flávio Josefo, em sua obra Antiguidades, diz que neste período os samaritanos contaminaram o templo durante uma festa de páscoa, jogando ossos humanos pelo pátio do templo. (conf. Josefo. Antiguidades 18:20).

Ainda no período Intertestamentário, quando Jerusalém foi destruída pelo rei Antíoco o Grande, e o templo saqueado, muitos judeus foram torturados e proibidos de circuncidar seus filhos. E Josefo, ao registrar estes acontecimentos em sua obra Antiguidades, menciona que os samaritanos, vendo os judeus afligidos por tantos males, “evitavam dizer que tinham a mesma origem e eram da mesma raça e que seu templo de Gerizim era consagrado ao Deus Todo Poderoso.”[14] Neste mesmo tempo, enviaram uma petição ao rei Antíoco, onde se identificaram como “sidônios, habitantes de Siquém” e para não serem castigados como os judeus, afirmam nesta mesma petição:

“Agora que V. Majestade, julga-se obrigado a castigar os judeus como eles merecem, os que executam suas ordem querem nos tratar como a eles porque pensam que temos a mesma origem…”[15]

Kenneth Bailey, ao tratar deste ódio entre judeus e samaritanos cita uma observação de Osterley, onde diz que “os samaritanos eram publicamente amaldiçoados nas sinagogas; diariamente era feita uma petição a Deus para que os samaritanos não fossem participantes da vida Eterna.”[16]

Através dos Evangelhos, também é possível perceber este desprezo de ambas as partes. Quando Jesus decide ir á Jerusalém, envia alguns mensageiros adiante dele para lhe preparar pousada. Lucas, no seu evangelho, registra que os samaritanos não o receberam, e ao verem isto “os discípulos Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir? Jesus, porém, voltando-se os repreendeu e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.” (Lucas 9:54-56)

O Evangelista João, por exemplo, ao registrar o encontro de Jesus com uma mulher samaritana, contenta-se em dizer que “os judeus não se dão com os samaritanos” (João 4:9)

Diante de todas estes fatos, podemos dizer que o ódio alimentado entre judeus e samaritanos era de longa data. E pelos motivos acima anotados, fica evidente que durante o período da igreja primitiva, este ódio havia crescido intensamente. Tendo isto em mente, será possível compreender melhor as implicações decorrentes do fato de os samaritanos “receberem a palavra de Deus”.

2.2. Contexto Literário da Passagem:

2.2.1. Estrutura de Atos dos Apóstolos:

É unanime entre os estudiosos que o livro de Atos pode ser analisado através de vários esquemas estruturais, pois em Atos “os personagens vão variando, também a localização, o Contexto sócio-cultural; os discursos são mais extensos e diferentes entre si. Mesmo a difusão da fé à partir de Jerusalém não é linear.”[17]

Em geral, é possível estruturar Atos dos Apóstolos por meio dos seguintes padrões estruturais:[18]

Padrões Estruturais:
1.  Geográfico
2.  Sócio-Étnico
3.  Fronteiras Culturais
4. Pedro e Paulo

5. Discursos

6. Padrões que se Alternam
7. Alocação de Espaço
8. Declarações Sumárias

Todos estes padrões são possíveis, é difícil dizer qual seria o melhor. Dependendo da perspectiva do assunto a ser estudado em Atos, é que devemos escolher o padrão mais adequado.

O texto desta exegese (Atos 8:14-17), será melhor compreendido á luz do padrão estrutural “geográfico”, introduzindo o aspecto sócio-étnico.

H. Marshall[19], por exemplo, usa Atos 1:8 como base para organizar o livro de Atos e apesar dele não levar muito em conta o aspecto sócio-étnico, ele estruturou muito bem o livro geograficamente. E á luz deste texto, ele extraiu a seguinte estrutura:

mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.” (Atos 1:8)

A Estrutura de Atos dos Apóstolos
I. 1:1 – 5:42 Testemunhas em Jerusalém:
1:1 – 2:47 O início da Igreja
3:1 – 5:42 A igreja e as autoridades judaicas
II. 6:1 – 11:18 Testemunhas na Judéia e em Samaria:
6:1 – 9:31 A igreja começa a expandir

9:32 – 11:18

O início da missão gentílica
III. 11:19- 28:31 Testemunhas até os Confins da Terra:
11:19 – 14:28
A missão à partir de Antioquia à Asia Menor
15:1 – 15:35 A discussão quanto aos gentios na igreja
15:36 – 18:17 A campanha missionária de Paulo na Macedônia e Acaia

18:18 – 20:38

A campanha missionária de Paulo na Ásia Menor
21:1 – 28:31 A detenção e prisão de Paulo

A importância dada ao aspecto sócio-étnico nesta exegese, fica evidente no “Contexto Histórico” já abordado acima, onde tratou-se da questão dos “judeus e samaritanos”, que étnicamente falando é mais pertinente ao texto desta exegese (Atos 8:14-17). Este texto, que é uma narrativa, se encontra inserido entre o cap.6:1 – 9:31, justamente onde a igreja começa a expandir e Samaria é alcançada pelo evangelho.

3. ESTUDO TEXTUAL:

3.1. Tradução:

Texto grego e tradução de Atos 8:14-17:


8:14 Ouvindo[20] também os apóstolos em (dentro de) Jerusalém que a Samaria estava recebendo[21] (continuamente) a palavra de Deus, enviaram perante eles Pedro e João.

8:15 os quais desceram e oraram a Deus (com empenho) a cerca deles, a fim de que (para que) eles recebessem o Espírito Santo.[22]

8:16 pois Ele não tinha descido[23] sobre nenhum deles mas somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus.

8:17 então eles estavam impondo as mãos sobre eles e eles (continuamente) recebiam o Espírito Santo.

3.2. Discussão a respeito da “Descida do Espírito Santo”:

Depois de avaliarmos[24] os aspectos históricos, contextuais e literários, podemos finalmente entrar na discussão a respeito da “descida do Espírito Santo.” O livro de Atos registra várias ocasiões em que ocorre a descida do Espírito Santo. Naturalmente que não será possível avaliarmos detalhadamente cada uma delas, mas para compreendermos melhor o nosso texto, que registra a descida do Espírito sobre os samaritanos, será necessário uma breve análise sobre o significado das demais descidas do Espírito Santo que o livro de Atos dos Apóstolos registra.

O Pentecostes de Atos 2, é um evento único em relação as demais descidas do Espírito Santo, como veremos a seguir. Mas há um aspecto que os une, que é um aspecto de continuidade e confirmação, como também veremos mais a diante nesta discussão.

Na história da salvação, a descida do Espírito Santo não é um acontecimento isolado, o Pentecostes faz parte do conjunto ou complexo de eventos que se constitui na morte, ressurreição, ascensão de Jesus e Pentecostes que é o ponto alto do complexo.[25]

O advento do Pentecoste havia sido profetizado pelos profetas no Antigo Testamento. E no Novo Testamento, João Batista referindo-se também ao Pentecostes predisse:

“Eu, na verdade, vos batizo com água, mas vem o que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.”  (Lucas 3:16)

Lucas ainda registra no início do Livro de Atos as palavras de Jesus a cerca do dia do Pentecostes dizendo:

Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. (Atos 1:5)

Quando Pedro foi questionado em Jerusalém a cerca da conversão dos gentios na casa de Cornélio, onde também houve uma descida do Espírito Santo, ele se refere ás palavras de Jesus e responde:

Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo. (Atos 11:16)

Todas estas referencias tratam da descida do Espírito Santo, experiência esta, que foi singular nos dias da igreja cristã nascente. Os primeiros discípulos que seguiram Jesus ainda o fizeram sob o contexto da Antiga Aliança e apesar de serem crentes, eles o eram antes do evento do Pentecostes. E somente com este evento é que entraram na Nova Aliança, inaugurada com a descida do Espírito Santo. Assim podemos dizer que estes foram os únicos cristãos das duas alianças.[26]

Lucas registra que, à estes crentes, foi determinado que “não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai” (Lc1:4) e finalmente Jesus diz em Atos 1:8 “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.”

Como já vimos na “Estrutura de Atos dos Apóstolos”, este verso é de extrema importância para compreendermos o desenvolvimento do cristianismo primitivo, e consequentemente, o desenvolvimento do próprio livro de “Atos dos Apóstolos.”

A descida do Espírito Santo á determinados grupos é registrada primeiramente com os discípulos em Pentecostes (Atos 2), em seguida aos Samaritanos (Atos 8), na casa de Cornélio (Atos 10,11) e aos discípulos de João Batista em Éfeso (Atos 19). Os três primeiros eventos são os que mantém uma seqüência: judeus, meio-judeus e não judeus. A descida do Espírito aos discípulos de João Batista, destoa um pouco, pois eles de fato ainda nem haviam ouvido falar no Espírito Santo, e haviam sido batizados apenas no batismo de João Batista. O caso de Atos 19:1, “é um tanto peculiar, pois, segundo o sentimento do Novo Testamento tudo indica que os discípulos de João Batista ali citados não eram convertidos”[27] e muito menos batizados em nome do Senhor Jesus como os samaritanos em Atos 8.[28] Assim, os três primeiros eventos do Espírito Santo, têm uma ligação de extensão como veremos a seguir.

De fato, a promessa deveria começar em Jerusalém, pois o evangelho seria levado aos gentios a partir dos judeus. Prenúncios da “Universalidade do Evangelho” remontam desde Gênesis, quando Deus disse a Abraão: “em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gn.12:3).  Jesus disse que a “salvação vem dos judeus” (João 4:22). A promessa do Espírito Santo é dada primeiramente aos judeus em Jerusalém em cumprimento à profecia de Joel (Atos 2:16). E este ato único, “inaugura a Igreja através dos que criam em Jesus, por isso foi um batismo de inauguração com os crentes[29]”.

É importante ressaltar o aspecto de extensão que ocorre do Pentecoste em Jerusalém até as demais manifestações do Espírito nos dois grupos seguintes. Abraham Kuyper por exemplo ressalta que “aconteceu um derramar original em Jerusalém no dia do Pentecoste e um derramar suplementar nas demais culturas representadas de meio-judeus e não judeus.”[30]

Uma breve compreensão desta primeira fase com os judeus em “Jerusalém” (At.2) é fundamental para as duas seguintes, ou seja, com os meio-judeus em Samaria (At.8) que é o texto do nosso estudo e finalmente com os gentios na casa de Cornélio (At.10,11) que realmente não será o nosso foco de estudo nesta exegese.

3.3. Discussão a respeito da “Descida do Espírito Santo sobre os Samaritanos”:

Já deve ser notório ao leitor, que o aspecto étnico se confunde ou até mesmo transpõe o aspecto geográfico da difusão do evangelho: “Jerusalém, toda Judéia e Samaria, até os confins da terra,” é sobreposto por “judeu, meio-judeu, gentio”. Claro que este desenvolvimento e expansão não ocorre com uma “precisão bélica”, até porque o evento com os samaritanos em Atos 8, não comporta todo o conceito da expressão “toda Judéia e Samaria”, mas este desenvolvimento geral é claramente distinguível em Atos dos Apóstolos, ao menos como representativos étnicos.

Após a morte de Estevão, levantou-se uma grande perseguição aos cristãos que se espalharam pela região da Judéia e Samaria. No caso, Filipe desceu até a Samaria e pregou aos samaritanos, que segundo o texto atenderam á sua pregação.

O professor Alderi de Solza Matos, ao tratar deste evento, faz duas observações que são importantes para o nosso estudo:

1.     Pela primeira vez em Atos os discípulos de Jesus ingressam em território não-judaico para pregar o evangelho.

2.     O primeiro missionário em Samaria não é um dos doze, mas um dos sete escolhidos para ministrar aos necessitados da comunidade de Jerusalém: Filipe o evangelista, que não deve ser confundido com Filipe o Apóstolo.[31]

O que de estava acontecendo era tão inusitado quanto ao fato de Lucas dizer que os samaritanos haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus e ainda assim não haviam recebido o Espírito Santo. Creio que de fato, esta afirmação se constitui na maior dificuldade deste texto. John R. W. Stott, por exemplo, concorda com I Howard Marshall quando este afirma que “esta é talvez a declaração mais extraordinária em Atos.”[32]

O fato do texto dizer que os samaritanos ainda não tinham recebido o Espírito Santo, têm dividido os teólogos. Existem algumas interpretações que os intérpretes sugerem:

1.    Os samaritanos não eram convertidos de fato, e por isso não receberam o Espírito Santo. Faltou algo, ou na mensagem de Filipe, ou na resposta dos samaritanos á sua mensagem.

2.    A conversão se dá em dois estágios, primeiro a pregação de Filipe e depois, com a imposição das mãos dos Apóstolos, há um tipo de confirmação.

3.    Os samaritanos receberam o Espírito Santo na pregação de Filipe, mas o texto estaria indicando que eles ainda não haviam recebido uma graça especial, um “carisma” do Espírito que só veio a ser dado através dos Apóstolos.

Quando aplicarmos este texto, trataremos das implicações de se aderir a qualquer uma das duas interpretações sugeridas á cima. Por enquanto, veremos o que o texto de fato nos diz.

A primeira interpretação, sugere que os samaritanos ainda não haviam se convertido de fato. Campbell Morgan, por exemplo, interpreta que a “aceitação da palavra de Deus” (v.14) foi uma assimilação meramente intelectual, “eles não tinham recebido o espírito que traz regeneração, o início da vida”[33]. James Dunn, acredita que os samaritanos foram levados pelo “instinto gregário de um movimento popular de massa”[34].

Lucas registra um pouco antes que “As multidões atendiam, unânimes, às coisas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava.” (v.6)

Quando os apóstolos foram até samaria, o texto não nos diz que eles pregaram novamente para os samaritanos. Ou seja, não havia nada de errado com a pregação de Filipe, e nem com a assimilação dos samaritanos, o texto nos diz que os apóstolos apenas oraram e impuseram as mãos para que eles recebessem o Espírito Santo.

O texto nos diz ainda que “Samaria recebera a palavra de Deus”, e Stott observou muito bem ao dizer que esta expressão parece ser quase técnica por meio da qual Lucas assinala um novo e importante estágio no avanço do Evangelho. Nas três fases de desenvolvimento do evangelho vemos uma expressão semelhante. Pentecostes “aceitaram a palavra [de Pedro] (At.2:41) Samaritanos “receberam a palavra de Deus” (At. 8:14) e finalmente com referência á conversão de Cornélio quando os apóstolos ouviram que “também os gentios haviam recebido a palavra de Deus” (At.11:1)[35]

Se os samaritanos não fossem convertidos de fato, certamente que Lucas teria deixado claro, assim como deixou claro a “falsa” conversão de Simão, logo após os Apóstolos imporem as mãos sobre os samaritanos. E Filipe continuou sua obra evangelística sem a intervenção dos Apóstolos, como é o caso do oficial Etíope, que se converte na seqüência.

A segunda interpretação, diz que a conversão se dá em dois estágios, sendo primeiro o batismo e depois a imposição de mãos para o recebimento do Espírito Santo. Primeiro que o Espírito Santo pode cair sobre as pessoas antes mesmo do batismo com água, como ocorreu em Atos 10:44-48. Assim, podemos dizer que o Espírito Santo não está necessariamente fixado ao momento do batismo com água. A imposição das mãos não se menciona em conexão com o recebimento do Espírito noutro texto senão em 19:6, também em circunstâncias algo excepcionais. [36]

A terceira interpretação sugere que os samaritanos já haviam recebido o Espírito Santo na pregação de Filipe, e o que eles receberam com a imposição das mãos dos Apóstolos foi um dom carismático especial.

Esta interpretação não é impossível. Á luz da analogia da fé, poderíamos dizer que esta interpretação seria a mais provável, e de fato, ela é uma das mais defendidas por muitos intérpretes reformados, até porque o próprio João Calvino defende esta interpretação, dizendo que os samaritanos receberam a graça comum  do Espírito Santo na pregação de Filipe, e uma graça especial do Espírito Santo através dos Apóstolos, vejamos as suas palavras:

“Portanto, não devemos negar que os samaritanos que foram colocados em Cristo, na verdade, em batismo também tenha sido dado o Espírito á eles; e seguramente Lucas não falou da graça comum do Espírito, pela qual Deus nos regenera nos tornando seus filhos, mas daquela graça singular pela qual Deus teria dado no início do evangelho para embelezar o Reino de Cristo (…) para concluir, assim como os samaritanos já tinham sido selados com o Espírito de adoção, a excelente graça do Espírito caiu sobre eles, e com isso Deus mostrou para a sua igreja no tempo oportuno a visível presença do Espírito, assim ele poderia estabelecer para sempre a autoridade do seu evangelho e também testificar que seu espírito sempre será o governador e orientador da fé.”[37]

De fato, Calvino é muito convincente em suas palavras, sendo ele um dos maiores exegetas da Bíblia, dificilmente afirmaria algo que “aparentemente” vá contra a interpretação geral das Escrituras.

Todavia, há ainda comentaristas que defendem a possibilidade dos samaritanos não terem recebido o Espírito Santo e terem sido de alguma maneira tocados, o que seria uma contradição de realidades cristãs, como afirmam F. D. Bruner. De fato, gramaticalmente falando, esta última interpretação seria possível, pois quando lemos que os samaritanos, “somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus.”, segundo F. D. Bruner, quando Lucas diz: “somente “ mo,non ele indica que “o suficiente ainda não ocorrera, como realmente não tinha. Ser batizado e não ter recebido o Espírito Santo era uma anormalidade e de fato, conforme a passagem passa a ensinar, uma contradição de realidades cristãs.” [38] I. H. Marshall também sugere que Deus reteve o Espírito até a vinda de Pedro e João.[39] Ainda que haja argumentos gramaticais, devemos ficar com a interpretação geral das Escrituras, pois a regeneração só é possível pela ação do Espírito Santo de Deus.

4. CONCLUSÃO e APLICAÇÃO:

Antes de concluir, é necessário dizer que, apesar das divergências que existem entre os comentaristas, ao menos entre os reformados há uma unanimidade quanto ao fato desta passagem não ser normativa. O que aconteceu com os samaritanos foi algo único e especial, e não se repete de forma semelhante nem nas Escrituras, nem na história da Igreja. Há uma exclusividade mesmo diante do Pentecostes de Atos 2, e diante da descida do Espírito Santo na casa de Cornélio em Atos 10,11.

Atos registra os crentes recebendo o Espírito Santo antes e depois do batismo, mas a norma bíblica é ser regenerado para crer, e isto é simultâneo, ainda que haja passagens que mostrem que a pessoa deve crer e ser selado com o Espírito Santo da promessa, como diz o Apóstolo Paulo na carta aos Efésios “depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa;” (Efésios 1:13)

E o que aconteceu com os samaritanos é totalmente inusitado, pois o que tudo indica é que houve de fato uma retenção do Espírito Santo, ainda que tenha sido uma retenção de manifestações visíveis do Espírito Santo. E como disse Marshall, é possível que “Deus reteve o Espírito até a vinda de Pedro e João afim de que fosse visto que os samaritanos estavam plenamente incorporados na comunidade dos cristãos de Jerusalém que receberam o Espírito no dia de pentecoste.”[40]

Simon J. Kistemaker faz coro á isto dizendo que o propósito de Deus ter enviado Pedro e João para Samaria era “para que através dos Apóstolos ele aprovasse um novo nível de desenvolvimento na Igreja: a entrada dos samaritanos crentes, e Deus confirmou esta nova fase enviando o Espírito Santo como um sinal visível da sua divina presença.”[41]

Nas três manifestações extraordinárias do Espírito Santo, o apóstolo Pedro estava presente. No Pentecoste, com os samaritanos e finalmente com os da casa de Cornélio. E nas outras manifestações extrordinárias do Espírito Santo que ocorrem fora desta seqüência, havia pelo menos um dos Apóstolos, como no caso dos discípulos de João Batista, havia o apóstolo Paulo. E como disse Bruner, “o papel dos apóstolos não deve ser subestimado. Como testemunhas exclusivas do ministério da morte, e acima de tudo da ressurreição de Jesus Cristo, e como portadores especialmente nomeados para levar esta tradição salvífica ao mundo, foram investidos de autoridade pelo SENHOR, e não é acidente por tanto, que eles, e não quaisquer discípulos em Jerusalém, é que foram enviados á Samaria.”[42]

O grande abismo que havia entre judeus e samaritanos precisava ser transposto de uma forma extraordinária e esta forma não deveria ser vista como uma norma para a igreja em hipótese alguma.

Nunca jamais poderemos conceber que um acontecimento como este seja normativo e aplicá-lo á Igreja, e os que assim fizeram erraram grandemente.

Por exemplo, os católicos e alguns anglo-católicos, baseados neste texto, acreditam que a conversão se dá em duas fases: primeiro o batismo e depois o que eles chamam de “confirmação”, com a imposição de mãos de um bispo que segundo eles é “um sucessor dos Apóstolos”.[43]

Já os pentecostais e neo-pentecostais, também baseados neste texto, acreditam que o cristão se converte e recebe o Espírito Santo ao crer e ser batizado, contudo, pregam que o cristão precisa buscar uma segunda benção do Espírito, que eles chamam de “batismo com ou no Espírito Santo”, que segundo eles, deve ser acompanhado com falar em línguas e outras manifestações do Espírito.

Normas devem ser tiradas de uma interpretação á luz de toda Escritura. As passagens nas Escrituras que são de fato normativas, geralmente são claras em sua interpretação. Passagens com uma interpretação controversa como a de Atos 8, dificilmente seriam normativas. Tendo isto em mente nunca traremos prejuízo algum para a Igreja. Finalmente, aquilo que Atos 8 tem para nos ensinar foi muito bem sintetizado nas palavras de Bruner:

“A centralidade dos apóstolos e a união da igreja – estão entre as lições importantes de Atos 8 – mas são sobrepujadas por aquilo em prol de que existiam tanto os apóstolos quanto a única Igreja Apostólica. O evangelho na sua graça, liberdade e universalidade, constitui-se em escopo principal do incidente da Samaria. A iluminação diante dos olhos da igreja inteira – judaica, samaritana e depois ecumênica – do evangelho gratuito de Jesus Cristo, que é selado para todos quantos o recebem, pelo Dom gratuito do Espírito Santo.”[44]

Notas:

[1] Carson sugere que Lucas, devido a sua ênfase, teria preferido que se seu livro se chamasse “Atos do Espírito Santo” ou até mesmo “As coisas que Jesus continuou a fazer e a ensinar. Ver CARSON, D. A. et. al. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, pg.203. Stott, vai mais além e sugere o título: “As Palavras e Obras de Jesus que Continuam Através do Seu Espírito por Intermédio dos seus Apóstolos”. STOTT, John R. W. A mensagem de Atos São Paulo: ABU, 2000, pg.32

[2] BRUCE, F. F. Merece Confiança o Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1990, pg.105

[3] D. A Carson, após avaliar vários argumentos, sugere esta data, no entanto, admite que esta data não é definitiva. Ver CARSON, D. A. et. al. op. cit. pg.219.

[4] CARSON, D. A. et. al. op. cit. pg.220.

[5] Ver esta análise em CARSON, D. A. et. al. op. cit. pg.221. Carson sugere que este aspecto de reconciliação pode até Ter sido um aspecto secundário de Lucas.

[6] STOTT, John R. W. op. cit. pg.18

[7] Ver a discução de Stott a respeito destes críticos: STOTT, John R. W. loc. cit.

[8] MARSHALL, I. Howard Atos Introdução e comentário São Paulo: Mundo Cristão, 1988, pg.16 Ver análise de Marshall ao mostrar as evidências levantadas por Sir William Ramsay, em suas obras Ramsay, W. M. St Paul the traveller and the Romam Citizen Londres: 1895, 1920; The Bearing of Recent Discovery on the Trustworthhiness of the New Testament Londres: 1914

9 Howard Marshall citado por Stott em: STOTT, John R. W. op. cit. pg.27.

10 MARSHALL, I. Howard op. cit. pg.21

[11] Ver CHAMPLIN, Russel N. Encicplopédia de Teologia e Filosofia v.6 São Paulo: Candeia, 1997, pg.88; STOTT, John R. W. op. cit. pg.165.

[12] Por exemplo, pelo fato dos samaritanos insistirem que o monte Gerizim é o único verdadeiro santuário central de toda Israel, o texto de Deut. 27:4, foi alterado para dizer monte Gerizim e não monte Elba conforme se vê no texto Massorético. Também adicionaram mais um mandamento aos Dez Mandamentos de Êxodo e de Deuteronômio, requerendo a ereção de um altar no monte Gerizim e a celebração de holocaustos nesse monte “Tu construirás um templo no monte Gerizim, e lá somente adorarás”, além de algumas outras alterações. Ver CHAMPLIN, Russel N. op. cit. pg.90

[13] CHAMPLIN, Russel N. op. cit. pg.89

[14] JOSEFO, Flávio História dos Hebreus – Antiguidades Judaicas Rio de Janeiro: CPAD, pg.25

[15] JOSEFO, Flávio loc. cit. (grifos meus)

[16] BAILEY, Kenneth E. As parábolas de Lucas: a poesia e o camponês São Paulo: Vida Nova, 2001, pg.92

[17] GOMES, Paulo S. Exegese de Atos dos Apóstolos (Apostila não publicada) pg.1

[18] Ver GOMES, Paulo S. loc. cit.

[19] GOMES, Paulo S. loc. cit. Gomes cita a estrutura de H. Marshall, entretanto, também ressalta que “Samaria não circunda a Judéia e Atos termina em Roma, a qual não parece ser “confinsda terra”, mas a capital política do mundo.” Apesar desta ressalva, creio que esta estrutura norteará o estudo desta exegese.

[20] Quando o particípio aparece na forma predicativa (sem o artigo) pode ser traduzido no gerúndio. Ver REGA, Lourenço Stélio Noções do grego Bíblico São Paulo: Vida Nova, 1999, pg.102. VAkou,santej está no particípio aoristo (uma ação pontilear). Este é um particípio circunstancial, e no caso “subsequente”, já que os Apóstolos (subsequentemente)  ouviram que Samaria (primeiramente) havia recebido a palavra de Deus.

[21] de,dektai este verbo está no indicativo perfeito média ou passiva. Por estar no indicativo, indica um fato tido como certo. No contexto, entende-se que Samaria havia recebido a palavra (ação completa) e continuava a receber (uma ação pontilear-durativa). Kistemarker por exemplo ressalta que , “embora a forma seja passiva, ela é traduzida como ativa. O tempo perfeito do verbo de,comai (eu recebo, eu aceito) significa um efeito contínuo” Ver KISTEMARKER, Simon J. New Testament Commentary – Exposition of the Actos of the Apóstoles Michigan: Baker Book House, pg.303

[22] a[gion está na posição predicativa, sem o artigo, e geralmente se traduz (é Santo), mas por estar no acusativo (o Santo), “o Santo Espírito” ou “o Espírito Santo”. Kistemarker diz que Lucas intenta não distinguir “entre esta forma e aquela que tem o artigo definido.” KISTEMARKER, Simon J. loc. cit.

[23] Kistemarker ressalta que “o perfeito da construção evpipi,ptw (eu caio sobre, eu desço sobre) denota resultado. Ver KISTEMARKER, Simon J. loc. cit.

[24] O autor desta exegese, conscientemente passa a usar a “1a pessoa do plural” para que, mais fluentemente, possa discutir este assunto com o leitor.

[25] Ver PAULA, José João de O Significado de Pentecoste na História da Salvação Belo Horizonte, 1999, pg.74. (Dissertação apresentada no CPPG Andrew Jumper)

[26] Ver PAULA, José João de op. cit. pg.66

[26] Ver PAULA, José João de op. cit. pg.90

[27] Ver MARSHALL, I. Howard Atos Introdução e comentário São Paulo: Mundo Cristão, 1988, pg.152

[29] Ver PAULA, José João de op. cit. pg.89

[30] KUYPER, Abraham The Work of the Holy Spirit (Grand Rapids: Erdmans, 1975) pg.123-126 citado por: PAULA, José João de op. cit. pg.90

[31] MATOS, Alderi Souza de O Batismo em Nome de Jesus no livro de Atos: Uma Reflexão Bíblico-Teológica São Paulo: Fides Reformata, vol.V, n.2, 2000 pg.110

[32] Ver MARSHALL, I. Howard loc. cit.

[33] MORGAN, G. Campbell The Actos dos Apostles (Fleming H. Revell, 1924; Pickering & Inglis, 1946) pg.157 (citado por STOTT, John R. W. op. cit. pg.173)

[34] DUNN, James D. G. Baptism in the Holy Spirit SCM Press, 1970, pg.63-68 (citado por STOTT, John R. W. op. cit. pg.173)

[35] STOTT, John R. W. op. cit. pg.167

[36] Ver MARSHALL, I. Howard op. cit. pg.152

[37] CALVINO, João Calvin’s Bible Commentaries – Actos pg.278 (Touch And Go Librarian – CD ROM)

[38] BRUNER, F. D. Teologia do Espírito Santo São Paulo: Vida Nova pg.139

[39] Ver MARSHALL, I. Howard op. cit. pg.153

[40] Ver MARSHALL, I. Howard loc. cit.

[41] KISTEMARKER, Simon J. New Testament Commentary – Exposition of the Actos of the Apóstoles Michigan: Baker Book House, pg.300

[42] BRUNER, F. D. op. cit. pg.138.

[43] Ver STOTT, John R. W. op. cit. pg.170

[44] BRUNER, F. D. op. cit. pg.139.

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